Solarpunk vs Lowtechpunk: qual futuro você escolhe?
Desde a segunda metade do século 19, a tecnologia se tornou parte do imaginário do futuro. A época teve avanços como novas fontes de energia, a transformação do ferro em aço, ruas iluminadas por lâmpadas elétricas,…

Desde a segunda metade do século 19, a tecnologia se tornou parte do imaginário do futuro. A época teve avanços como novas fontes de energia, a transformação do ferro em aço, ruas iluminadas por lâmpadas elétricas, o metrô londrino, o telefone e o rádio, além da segunda Revolução Industrial. Esses fatos levaram a humanidade a imaginar futuros positivos, ligados ao progresso da ciência.
Esse entusiasmo utópico, porém, deu lugar às distopias. As consequências do avanço tecnológico, incluindo as duas guerras mundiais, mostraram que a tecnologia também poderia gerar futuros catastróficos. Artistas e escritores usaram esse imaginário em ilustrações e na ficção científica, influenciando as gerações do século 20. No início, as distopias tratavam do totalitarismo político e da opressão tecnológica. No final do século, surgiram temas como desastres biológicos e destruição dos ecossistemas, presentes no cyberpunk.
No século 21, a preocupação com a saúde mental e uma visão mais ampla de tecnologia, que vai além das máquinas, se somam a esse cenário. É nesse contexto que aparecem os movimentos Solarpunk e Lowtechpunk. Ambos rejeitam a distopia clássica do cyberpunk, conhecida como “high-tech, low-life”, mas têm premissas diferentes sobre tecnologia, limites planetários e o que é desejável para o futuro.
Duas visões para o futuro
O Solarpunk, que surgiu nos Estados Unidos, defende o uso de tecnologias avançadas e limpas, integradas à natureza. Isso inclui painéis solares, arquitetura orgânica, microgrids e agricultura urbana de alta produtividade. Sua estética combina natureza e alta tecnologia, com uma sociedade cooperativa, equitativa e regenerativa, com foco em comunidade, justiça social e recuperação dos ecossistemas. O apocalipse pode ser o ponto de partida, mas o objetivo é construir um mundo melhor a partir do presente.
O Lowtechpunk, inspirado nos estudos da colapsologia francesa de Arthur Keller, propõe uma preferência por tecnologias low-tech ou mid-tech. Essas tecnologias são simples, reparáveis localmente e têm baixo impacto energético e material. Elas se baseiam em saberes humanos, como técnicas artesanais, bicicletas, rádio analógico, materiais locais e sistemas passivos. A premissa é a “grande simplificação”, com redução do consumo de energia e materiais.
O movimento parte da ideia de que sistemas hipercomplexos e globalizados se tornam frágeis, enquanto a resiliência vem da autonomia e da capacidade de fazer mais com menos. Por isso, enfatiza a reparabilidade, a manutenção comunitária e a sobriedade diante de rupturas nas cadeias de suprimentos. Suas narrativas ocorrem em cenários de colapso parcial ou escassez de recursos, mas preservam a dignidade humana e a possibilidade de regeneração, sem um apocalipse total.
Apesar das diferenças, os dois movimentos compartilham o DNA punk: valorizam o “faça você mesmo” (DIY), a descentralização, a autonomia, a vida em comunidade e a responsabilidade ecológica. Eles rejeitam o modelo “high-tech, low-life” sem cair no fatalismo. Os bordões de cada movimento resumem suas filosofias: “Somos solarpunks porque o otimismo nos foi tirado e estamos tentando recuperá-lo” e “Construir um sistema low-tech é, ao mesmo tempo, um ato de resistência e de resiliência”.