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Bloqueio do Claude Fable 5 acende alerta sobre dependência estrangeira

O governo dos Estados Unidos suspendeu, na tarde de sexta-feira (12), o acesso de estrangeiros aos modelos de inteligência artificial Fable 5 e Mythos 5, da empresa Anthropic. A medida vale mesmo para usuários que estejam…

Bloqueio do Claude Fable 5 acende alerta sobre dependência estrangeira
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O governo dos Estados Unidos suspendeu, na tarde de sexta-feira (12), o acesso de estrangeiros aos modelos de inteligência artificial Fable 5 e Mythos 5, da empresa Anthropic. A medida vale mesmo para usuários que estejam em território americano. O Fable 5 havia sido lançado há menos de uma semana como a IA mais avançada da empresa disponível ao público.

A justificativa do governo americano, sem muitos detalhes, foi a descoberta de um jailbreak. A Anthropic contesta a decisão e afirma que a vulnerabilidade tem alcance limitado e que a capacidade de identificar falhas em código já existe em outros modelos públicos. Mesmo assim, a empresa cumpriu a ordem e removeu o Fable 5 do Claude para todos os usuários.

Em entrevista ao Canaltech, o diretor-executivo do ITS-Rio, Fabro Steibel, afirmou que o episódio expõe um risco de disponibilidade. Segundo ele, o caso confirma a suspeita de governos asiáticos, europeus e latino-americanos de que usar infraestrutura de IA concentrada em empresas americanas significa aceitar que decisões políticas dos EUA podem interromper sistemas sem aviso, explicação ou recurso.

A base legal usada foram os controles de exportação, instrumentos que permitem restringir o acesso a tecnologias estratégicas. Normalmente aplicados a hardware, como chips, as medidas foram usadas agora contra um modelo de software, sem que o governo precisasse apresentar evidências técnicas verificáveis. Steibel destacou que não há garantia contratual que supere uma ordem de segurança nacional americana. Para ele, a continuidade do serviço é uma concessão, não um direito.

A falta de transparência também é um problema. Sem saber qual falha foi explorada, a Anthropic não pode demonstrar que a corrigiu, e terceiros não podem auditar se o bloqueio era necessário. “O governo não precisa demonstrar que o jailbreak é replicável ou que o risco é iminente, basta invocá-lo sob o guarda-chuva de controles de exportação”, disse Steibel. “Isso cria um precedente perigoso.”

Disputa global

O bloqueio ao Fable 5 e ao Mythos 5 é mais um capítulo da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Por anos, a estratégia americana foi cortar o acesso da China a componentes para o desenvolvimento de IA, como os chips da NVIDIA. A estratégia, porém, mostrou-se insuficiente. A China encontrou caminhos alternativos, como os chips da Huawei e o modelo DeepSeek, que se destacou no início de 2025.

Para o professor da FGV Direito Rio, Filipe Medon, isso forçou uma mudança de abordagem. Se bloquear o acesso ao hardware não impediu o desenvolvimento de modelos próprios, a nova fronteira é impedir que estrangeiros acessem diretamente as tecnologias americanas de alta capacidade. A disputa também atinge outros campos, como a tentativa frustrada da Meta de adquirir a Manus AI, contestada pelo governo chinês.

O Mythos, considerado “perigoso” pela própria Anthropic, está no centro da disputa. O modelo tem capacidade de identificar vulnerabilidades em código em escala industrial, com impacto em sistemas bancários e de defesa. “Quem tem acesso a essas ferramentas consegue, de uma forma nunca antes vista, ter um domínio quase total sobre outro país”, disse Medon.

Brasil e América Latina

Para o Brasil e a América Latina, o episódio é um argumento concreto a favor da soberania digital. Em 2024, o governo brasileiro anunciou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com investimentos de R$ 23 bilhões. Especialistas reconhecem o esforço, mas avaliam o valor como insuficiente. O investimento privado americano em IA chegou a US$ 285,9 bilhões em 2025, mais de 60 vezes o valor previsto no plano brasileiro, segundo a pesquisa AI Index da Universidade de Stanford.

Steibel aponta que muito do que está previsto no plano brasileiro ainda é investimento em tecnologia americana, o que não resolve o problema de fundo. No plano regional, o Chile lançou o Latam-GPT em fevereiro, coordenado pelo CENIA, com dados em espanhol. Para Steibel, é o esforço mais concreto da região em modelo de linguagem nativo até agora.

Medon também chama atenção para a retenção de talentos. Para ele, de nada adianta investir em infraestrutura se os profissionais capacitados para desenvolver IA continuam migrando para empresas americanas e europeias. O objetivo, segundo ele, não é recusar tecnologia estrangeira, mas construir autonomia de escolha. “Soberania é você ter autonomia, é você ser capaz de escolher qual tecnologia vai usar de maneira soberana, sem essa dependência de só usar de um único país”, disse.

Modelos abertos

Modelos de código aberto, como Llama, da Meta, Mistral, da França, e DeepSeek, da China, surgem como alternativa para reduzir a dependência de APIs estrangeiras. Steibel observa, porém, que a solução resolve o problema de disponibilidade, não o de capacidade. Um modelo open source pode estar sempre acessível, mas nem sempre chegará ao nível do Mythos. “O projeto de cloud soberana do governo brasileiro, se executado, permite hospedar modelos open-weight em infraestrutura nacional. Isso resolve o problema de disponibilidade, não o de capacidade de fronteira”, explicou.

Medon reconhece a utilidade dos modelos abertos, mas pondera sobre a capacidade de cada país de desenvolver em cima dessas bases. “Os modelos open source são úteis porque permitem que você vá construindo coletivamente. Mas, no fundo, não sei até que ponto isso é determinante para o país efetivamente conseguir superar uma dependência estrangeira. Ajuda, mas não acho que seja uma bala de prata que vai acabar com todos os problemas”, concluiu.